31 de março de 2011

A arte de semear estrelas


Há qualquer coisa de infinito em cada um de nós.

Uma projeção de nossas possibilidades além de nossas fronteiras. (...) Não nos bastamos. Não nos saciamos. O projetar-se para fora de si mesmo, exigência tão forte como falar aos outros ouvidos e ao coração de outra pessoa. O discurso solitário denuncia a loucura pela incapacidade de comunicar-se. Queremos ir além das pegadas de nosso passos, tocar mais distante que a extensão de nossas mãos, ver o invisível, ouvir as insinuações do inefável sentir as palpitações da terra e o sabor do fogo em nossas entranhas. (...)

 Só o alimento pode saciar nossa fome. Só a água pode matar nossa sede. Só os outros podem nutrir nossa indigência. Sozinhos, somos a derrota orgulhosa, a vitória mentirosa. Há esse ímpeto de ir além, ultrapassar as fronteiras, conquistar o inacessivel. A transcendência. Não só o que está por cima, mas sobretudo o que é raiz. A imanência. Despojar a vida de todos os artifícios e estabelecer a comunhão. A transparência. Deixar que o silêncio se instaure no âmago do espírito e alçar vôo para o mais íntimo de si mesmo. A profundência. O reencontro de si no outro. essa vontade mágica de fundir-se em todos e em tudo, operar a síntese de todos os rumos, a certeza de todas as razões, a equação de todos os cálculos, vencidas as resistências que tornam o nosso próximo tão distante.

Esse pão, essa água e essa paz têm nome alegre, familiar e profundo: amor. 

(Do livro A Arte de Semear Estrelas - Frei Betto)